O imprescindível é a essência na vida da igreja. A forma, ou seja, o modus operandi, será sempre imanência da essência.
Mesmo na reforma o canto que foi levantado pelo cisne Lutero não saia apenas por causa das discrepâncias que havia no modelo de igreja papal que se vivia. Antes a força do canto estava no apelo à retomada da essência pura. Entretanto, Lutero não deixou que a retomada da essência se tornasse apenas um duelo acadêmico ou puro exercício de homilética.
Toda essência possui sua própria maneira de se expressar, e a Bíblia quando descoberta na sua originalidade é provocadora e desestabilizadora de todos os formatos que a igreja cristã tem assumido no decorrer dos séculos e milênios.
Nos nossos dias temos visto muitas mudanças, distorções e desentendimento sobre a forma que a igreja chamada evangélica tem assumido. Há estrategistas, missiólogos, teólogos, lingüistas e até executivos que propõe formatos que a igreja deve assumir para ser fiel, para ser arrojada, para ser cativante, para ser cristocêntrica, para ser referencial etc.
No meio desta colcha de retalhos há vários assuntos que são extremamente polêmicos como, por exemplo, os Dons Espirituais. A fim de se chegar a um entendimento mais correto, temas como este estão sempre sendo remexidos na sua essência através da dialética e do academicismo que permeia a igreja.
Por outro lado, temas de suma importância para vida da igreja como, por exemplo Discipulado, são tratados pela grande maioria das igrejas apenas sob a ótica da forma, ou seja, o Como se deve fazer predomina. Praticamente na se discute se é bíblico, ou mesmo o que a Bíblia revela ideologicamente sobre ele. Na grande maioria dos casos da igreja evangélica brasileira o discipulado é apenas usado e quase nunca entendido, provavelmente por esta causa é que ele é muito citado, mas muito pouca eficácia é vivido.
Levando em consideração que a igreja foi fundada e aprendida pelos discípulos de Jesus; considerando também que o modelo por excelência da igreja é Jesus e que para fundar a igreja ele resolveu fazer discípulos; ressaltando que a ordem que o Senhor da igreja deu aos seus discípulos foi a de fazer discípulos em todas as nações e levando ainda em consideração que só se constitui de fato igreja o povo que se torna discípulo de Jesus, não se pode, enquanto igreja legítima, tratar de um assunto desta grandeza estabelecendo apenas formatos estruturais para o seu funcionamento. Há muita essência a ser ressaltada, há muito conteúdo bíblico a ser compreendido pela igreja e seus líderes até que se estabeleça uma forma para que o discipulado cristão abençoe a vida de uma comunidade.
A igreja cristã evangélica brasileira cresce diariamente em número mas dá claros sinais de inanição espiritual, como superstição, falta de conhecimento mínimo sobre a Bíblia, conformismo secular, antropocentrismo até nos cultos e muitos outros, mas mesmo assim, muitas delas afirmam que fazem discipulado.
A Bíblia é a única regra de Fé e Prática, conforme é afirmado constantemente pelas igrejas reformadas, tornando assim imprescindível a observância de seu ensino sobre discipulado, uma vez que é dos lábios do Senhor Jesus que sai a ordem “Fazei discípulos” e é da vida dele que sai o modelo.
Em setembro de 1999 houve o Primeiro Congresso Internacional Sobre Discipulado. Neste evento, realizado em Eastbourn na Inglaterra, estiveram participando 450 delegados de 50 países que discutiram com grande profundidade o discipulado na igreja do século XXI. Foi deste congresso que saiu muita literatura e princípios para o pensar teológico sobre discipulado. De lá também surgiu um manual de discipulado organizado por Steve e Lois Rabey que traz uma imensa contribuição para este trabalho.
Seguir a Jesus como discípulo
O discipulado só pode existir havendo dois elementos fundamentais: o Mestre, que é Jesus por excelência; e o Discípulo, que é aquele que resolve seguir a Jesus. O principal objetivo deste tópico da pesquisa diz respeito a compreensão da maneira como os discípulos vivem este discipulado. Esta seção apresentará conceitos e teorias sobre o seguir a Jesus.
O cerne da vida Cristã é o relacionamento que o homem pode ter com Deus. Este relacionamento está definido nos termos de uma caminhada constante de amizade, de tal maneira que qualquer um que esteja disposto a ouvir e atender o convite de Jesus: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.”(Mateus 16:24), poderá ser amigo de Deus. Como disse Cynthia Heald em “Becoming a Friend of God” no Discipleship Journal, no. 54 “Deus não possui uma sociedade secreta de amigos. Somos tão íntimos dEle quanto desejamos e escolhemos ser.” É evidente no próprio chamado que há um alto custo para aquele que resolver deliberadamente seguir Jesus. Este custo é apresentado por vários autores (BONHOEFFER, 1937; PETERSON, 1980; TOZER, 1948, WILLARD, 1998; WHITE, 1976; EDWARDS, 1758; KAUNG, 1981; SPARKS, 1951; SCHEAFFER, 1971; MURRAY, 1985; HOUSTON, 2002).
Em Jesus se vê a definição do discipulado, não através de um sermão definido e amplo que o circunscrevesse para sempre, mas como em todos os assuntos de vital relevância para a vida do Cristão sua definição precisa ir para além das palavras, até a vida. Ao longo dos séculos, porém, muitos santos e estudiosos tentaram proporcionar uma definição mais detalhada do que está envolvido no discipulado. Dietrich Bonnhoeffer que foi diretor do seminário alemão que resistiu ao totalitarismo do Terceiro Reich de Adolf Hitler, sendo professor nos Estados Unidos durante os crescentes conflitos em seu país, escolheu retornar para Alemanha e compartilhar os sofrimentos do seu povo até ser executado em 9 de Abril de 1945, menos de um mês antes da Alemanha se render às tropas aliadas, tinha escrito em 1937 no livro “O Preço do Discipulado” as seguintes: “Quando Cristo chama um homem, lhe oferece a chance de vir e morrer”. O Pastor e Escritor A. W. Tozer em seu livro “À Procura de Deus” escrito em 1948 definia o discipulado como a busca de Deus e afirmou que esta tal busca “exigirá que ajustemos nossa personalidade com a Sua. E isso, não em termos de reconciliação, e sim, de transformação”. O Psiquiatra e Pastor John White escreveu em 1976 no seu Livro “A Luta” que “ser discípulo não é viver num mar de rosas. É assumir uma vida marcada por lutas: uma vida simples, profunda e aberta”. O Teólogo e Professor da Escola de Filosofia da Universidade do Sul da Califórnia em seu livro “A Conspiração Divina” escrito em 1998 define assim o discipulado: "E como discípulo de Jesus, eu estou com Ele, por escolha própria e pela graça, aprendendo com Ele a viver no reino de Deus. Essa é a idéia crucial. Isso significa, convém lembrar, viver dentro do alcance da vontade eficiente de Deus, a sua vida fluindo pela minha. Outro mod expressivo de falar a mesma coisa é dizer que estou aprendendo com Jesus a viver a minha vida como se Ele viveria a minha vida se fosse eu. Não estou necessariamente aprendendo a fazer tudo o que Ele fez, mas sim apredendo a fazer tudo o que faço da maneira que Ele fez tudo o que fez.” (WILLARD, 1998, ps. 311 e 312).
Enquanto alguns escritores preferem tentar encontrar uma definição ampla do discipulado, outros procuram descrever o discipulado através de “marcas” ou características daqueles que são verdadeiros discípulos de Jesus. John Flavel que foi Pastor presbiteriano no século 17 na Inglaterra, autor de várias obras sobre a prática da religião, em seu livro “The Method of Grace: How the Spirit Works” descreve oito passos que precisam ser dados em direção ao verdadeiro Discipulado, são elas: Pureza, Obediência a Deus, Abnegação, Diligência, Deleitar-se em Deus, Vida Pacífica, Humildade, Contentamento. Nessa linha de entendimento, para HOUSTON (2002), o discipulado Cristo possui muitas diferenças em relação ao discipulado encontrado na história clássica e na historia rabínica. Ele apresenta as seguintes: 1) não são discípulos de Cristo aqueles que O escolhem, pois é dEle a iniciativa, 2) o chamado de Jesus se aplica a todos, pois o pecado encerrou a todos na mesma condição, 3) faz-se necessário uma reorientação radical de vida, deixando tudo para seguir Jesus, 4) o ministério de Jesus, ou seja, curar enfermos, dar aos pobres, libertar os cativos, apregoar o dia do Senhor e viver na luz do reino de Deus, passa a ser experiementado e 5) acima de tudo uma manifestação do amor de Cristo, que sofre pelo ser humano e os ama.
A vida cristã deve ser vitoriosa, logo o discipulado para ser verdadeiro deve levar o discípulo a ter as seguintes atitudes: 1) ter certeza da salvação, 2) ter constância no tempo devocional, 3) ter constância na comunhão com os outros crentes, 4) ter certeza de que é cheio do Espírito Santo, 5) aprender a enfrentar as tentações e o pecado, 6) ser obediente a Deus, 7) permanecer dentro da vontade de Deus, 8) tornar-se uma boa testemunha do evangelho, 9) aprender mais acerca da Palavra de Deus e 10)viver pela fé em fatos (KUHNE, 1976).[...]
Discipulado: Vocação Universal
Jesus começa sua tarefa chamando homens comuns para seguí-lo de forma simples e objetiva. Durante o seu ministério público ele os enviou pelo menos duas vezes como ovelhas para o meio dos lobos e com instruções bem claras sobre o que deveriam ou não fazer. Nos dias entre sua ressurreição e ascensão ele deixou seus discípulos com um mandamento simples e objetivo: “ Ide e Fazei discípulos.”
É totalmente fora de questão se esta ordem dada àqueles discípulos também se aplica aos cristãos da igreja de todas as épocas. Entretanto, uma questão importante é para quem efetivamente se destina esse chamado. De acordo com SPROUL (1998) “A sucessão de Cristo à mão de Deus Pai está inseparavelmente ligada à vinda do Pentecoste(...) A seus discípulos foi dada uma grande comissão, um mandato para penetrar no mundo inteiro, dando testemunho do reinado de Cristo (...) Quando o Novo Rei do cosmos enviou o Espírito Santo, o poder do reino foi solto sobre este mundo.” Há vários autores que falam sobre o ministério do discipulado como uma necessidade de toda igreja e da igreja toda (GONDIM, 2001; PETERSON, 1980; HORTON, 1998, WILLARD, 1998; PRADO, 2001; MacARTHUR, Jr, 2003; BARRO, 2000; ORTIS, 1971; SMITH, 1969; SCHWARZ e SCHALK, 1997; HOUSTON, 2002; TENNEY e DOCKERY, 2005; SHENK e STUTZMAN, 1995; CAMPANHÃ, 2002; CRABB, 2000; VAN ENGEN, ). Mesmo admitindo a tarefa do discipulado como questão de obediência a uma ordem expressa de Jesus a igreja cristã tem uma imensa dificuldade de cumpri-la integralmente, primeiro porque é mais fácil falar do que agir (ESCOBAR, 1972), é preciso ouvir as palavras de Richard Baxter em seu livro “O Pastor Reformado”: “Quero exortá-los, irmãos, a que façam o bem, assim com falam bem(...) Que as suas vidas condenem o pecado e persuadam os homens a fazerem o mesmo.” Segundo porque a igreja não compreende a dimensão da obra, como disse Jill Briscoe no Primeiro Congresso Internacional Sobre Discipulado, quando falava sobre a vida de um mentor: “Um discípulo nunca vai estar desocupado. É isso que significa o nosso chamado: o plano divino em minha vida, sua obra em minhas mãos.” A vida de Jesus revela o exemplo supremo para um discipulado que envolve a vida toda. A verdade é que seus discípulos conviveram com ele e não apenas se encontraram durante uma hora por semana para ouvirem estudos bíblicos. Eles o viam de todos os ângulos, não só como o magnífico operador de milagres, mas também como aquele que fazia a vontade do Pai, mesmo contra sua, aquele que se contrariava com a falsa religião e chorava com as dimensões humanas. Para se ensinar valores bíblicos é preciso bem mais que livros e lições, é necessário convivência (TOUSSAINT, Discipleship Journal, no 102). Em terceiro é preciso considerar que dentro do corpo de Cristo existem muitas funções, para cada membro do corpo um dom, o exercício do discipulado está atrelado a capacitação do alto para as funções especificas que temos (WARREN, 1995).
Métodos e Modelos de Discipulado
Desde quando a ordem de fazer discípulos foi dada, uma pergunta tem continuado em vinte séculos de história cristã: qual é a melhor maneira de complementar esta tarefa gigantesca? Conquanto seja importante dar uma resposta satisfatória, Jesus deixou que a igreja a partir dos princípios revelados por Ele pudesse criar e providenciar métodos e modelos para a execução da tarefa. A verdade é que Jesus nunca deu aos seus discípulos um plano detalhado de como eles deveriam discipular os outros.
Em face da necessidade de obedecer ao mandato de Jesus, a igreja tem criado muitos sistemas para discipular ao longo desses dois mil anos de história. A intenção do presente trabalho não é revelar o caminho histórico que a igreja seguiu a respeito do discipulado, mas simplesmente revelar os veios principais que nasceram com a história afim de fazer clara distinção de proposta e objetivo de cada um.
Existem duas abordagens no discipulado. O discipulado individual (WILLARD, 2001; HOUSTON, 2002) e a abordagem do discipulado em grupo (BONHOEFFER, 1937; PETERSON, 1980; KORNFIELD, 1992; CRABB, 2000). Dentro destas dinâmicas de trabalho podem se desenvolver tipos de orientações diferentes para os discípulos. Há o Aconselhamento Psicológico que trabalha a questão dos conflitos emocionais que estão interferindo em todos os aspectos da vida do indivíduo, há o Aconselhamento Pastoral que concentra-se nas pressões que estão sobre os indivíduos que estão sucumbindo e há a Orientação Espiritual que é a forma de cuidado que um cristão mais maduro apresenta quando exerce seu dom para assistir a um outro cristão para ele crescer em seu relacionamento com Deus (DEMAREST, 1999; BAKER, 1998).
Desafios Modernos ao Discipulado
Sendo o discipulado um processo espiritual continuo que envolve a comunidade cristã com um todo pelo viés da obediência, sendo também uma questão que envolve o individuo como um todo, ou seja todas as áreas que compõe o ser e todas as áreas com as quais o individuo se relaciona sofrendo infinitas influencias, pode-se facilmente chegar a conclusão de que cumprir esta tarefa é um desafio enorme.
Neste trabalho serão levantadas seis questões principais que são extremamente atuais e oportunas. É válido salientar que nem todas tem relação direta com o assunto discipulado, mas são questões que afetam diretamente o individuo cristão e afetam também diretamente a vida da comunidade cristã, desta maneira se interpõem diretamente ao objetivo de obediência da igreja que quiser ser discipuladora.
O primeiro grande desafio é a pós-modernidade (STTOT, ouça o Espírito, ouça o mundo; GONDIM, 1996).
O segundo grande desafio é ensinar a necessidade de Valores Eternos no mundo relativista.
O terceiro desafio enorme é Vida em Comunidade em um mundo egocentrista (CRABB, 2000; CAMPANHÃ, 2002; KORNIFIELD, 1998; KIVITZ, 2003).
O quarto desafio magistral ao discipulado é não confundir Cidadania com Discipulado (HOUSTON, 2002; STOTT, ?; HORTON, 1998; PORTO, 2001; SOUZA, 2003, CAVALCANTI, 1997).
O quinto desafio colossal é a Compaixão pelos pobres (BARRO, 2000; STEUERNAGEL, 2003; QUEIROZ, 1998; LINTHICUM, 1991) .
O sexto desafio descomunal é evitar os excessos e os abusos (SHENK E STUTZMAN, 1995; GONDIM, 2003; MacARTHUR, 2003; D´ARAUJO FILHO, 1994; ROMEIRO, 1993; SCHNEIDER-HARPPRECHT, 1998).
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ResponderExcluirPastor, amei a iniciativa do blog,porque sei que será benção em nossa caminhada.
ResponderExcluirGostaria de deixar uma dica de usabilidade do blog: tente mudar a cor da letra ou a cor de fundo,poque fica ruim pra lermos.
SEMANA DE PAZ !!!
Ana Kárita
ROMANOS8:18 Pois tenho para mim que as aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há de ser revelada.
pENSEI QUE NÃO TIVESSE NADA ESCRITO.. DEPOIS PASSEI O MOUSE E DESCOBRI QUE A LETRA TAVA PRETA NO FUNDO PRETO!!!
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